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De uma fábrica de seda saiu música


Batizada com apelido de Milton, a Bituca - Universidade de Música Popular amplia espaço, ganha estúdio e abre inscrições

 

Livia Deodato - Jornal Estado de SP - 06/12/2008

 



Não fica assim tão escondidinha a fonte de inspiração do grupo teatral Ponto de Partida e de muitos meninos-estrelas, entre eles os de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. O último álbum lançado por eles, por exemplo, a ode à mãe natureza Pra Nhá Terra, é uma aula lírica muito bem arranjada sobre passarinhos, rios, tatus, grilos e cigarras. Adiciona nomes femininos às rosas coloridas e consagra a flor do ipê amarelo como a mais bela dentre todas. Pois descobrimos de onde é que essa trupe extrai toda essa singeleza e a transforma em uma das artes mais refinadas produzida atualmente.

 

A cerca de 170 km de Belo Horizonte, a cidade ambiguamente conhecida como das rosas e dos doidos (por ter abrigado um grande número de manicômios durante o século 20) corre agora o risco de ganhar notoriedade por causa da música - brasileira, de muita qualidade e entoada justamente entre grilos e cigarras. Há quatro anos, Barbacena ganhou uma universidade de música popular brasileira totalmente gratuita, no local onde funcionou, entre 1903 e fim da década de 60, uma das mais prolíficas fábricas de seda do Brasil, a Sericícola.

 

Desde o início dos anos 70, quando os imigrantes italianos responsáveis pela fundação da fábrica não conseguiram mais acompanhar a evolução do mercado e foram à falência, o casarão construído num pedaço exuberante da mata atlântica (esse mesmo com ipê amarelo, rosas coloridas, grilos e cigarras) foi trancado e esquecido. O Ponto de Partida, fundado em 1980, vislumbrou ali o terreno mais do que ideal para a produção de uma arte de raiz barbacenense e que, por isso, pôde ganhar asas, nas palavras de sua fundadora e diretora Regina Bertola.

 

O terreno, do Ministério da Agricultura, havia sido invadido por uma marcenaria e uma fábrica de placas de carros e tardou para receber uma invasão cultural: foi só em 1997, seis meses depois de tomar posse do local, que o grupo descobriu que o chão do piso superior era feito de tábua corrida de peroba rosa e o inferior de ladrilho hidráulico, "tamanha a sujeira acumulada".

 

Pronto. Vassouras, baldes de água, sabão, escovão, oito eletricistas e apoios do Fundo Estadual de Cultura, Lei Rouanet, algumas empresas, como a Gerdau, e associação de amigos do grupo tornaram possível a realização de sonhos que a qualquer mortal pareceriam impossíveis. Em pouco mais de 10 anos, o Ponto de Partida estreitou laços com os meninos-estrelas do Vale do Jequitinhonha e, por isso, aumentou sua família para 255 pessoas, produziu canções lindas e encantou o Brasil e o mundo. Há quatro anos, a vontade de engrossar o caldo artístico fez com que o teatro dividisse o espaço conquistado com um curso profissionalizante de música, de duração de dois anos, que está para formar a sua segunda turma com cerca de 90 alunos.

 

Batizada de Bituca (apelido de Milton Nascimento que, a princípio, estranhou o uso de um artigo feminino quando a referência é a universidade), a escola acaba de ser expandida e ganhar um novíssimo estúdio de gravação. Oito professores não acadêmicos, mas músicos atuantes, entre eles o violonista Gilvan de Oliveira, parceiro de muitos anos de Milton, o contrabaixista Enéas Xavier e o "húngaro por acidente" Ian Guest, dão aulas que visam aos palcos. A seleção dos alunos é feita pelo empenho e talento bruto.

 

"Quando estava na faculdade, me rebelei porque não estudávamos a nossa música. Aqui pesquisamos e tocamos samba, frevo, baião, chula. A Bituca é uma escola democrática, onde o método é discutido e existe a liberdade de se trabalhar. Os rebeldes precisam de liberdade", diz Gilvan. E essa liberdade foi longe. Dois de seus alunos, vindos de Araçuaí e abrigados na Casa de Morada (república destinada aos estudantes de outras cidades), que fizeram parte da primeira turma formada na escola, agora planejam rumos independentes. "Vou ver se estou pronto para entrar no mercado", diz o tão talentoso quanto modesto baixista Renato Marques, de 21 anos, que em janeiro segue para São Paulo. "É uma realização pessoal. Não é uma quebra de laços, mas uma abertura de espaço", assegura o percussionista Yuri Hunas, de 21, que já impressionou Elza Soares e vai se estabelecer na capital mineira.

 

No site www.grupopontodepartida.com.br estão abertas as inscrições para a universidade, onde se aprende muito mais que música, lições de vida.

 

A repórter viajou a convite da Bituca - Universidade de Música Popular

 

 
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